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Uma Parábola de Buda

Um dia, andando na selva, um homem encontrou um tigre feroz. Ele correu para salvar sua vida, perseguido pelo tigre.

O homem chegou à beira de um precipício e o tigre estava quase alcançando-o. Sem opção, ele se agarrou a uma parreira com suas duas mãos e desceu.
No meio do precipício, olhou para cima e viu o tigre no topo, arreganhando os dentes. Ele olhou para baixo e viu outro tigre que rugia esperando sua descida. E então percebeu que estava preso entre as duas feras.
Em seguida apareceram dois ratos sobre o precipício, um branco e outro preto. Como se ele não tivesse preocupações suficientes, os ratos começaram a roer a parreira na qual se segurava.
Ele sabia que se os ratos continuassem a roer, chegaria um ponto em que a parreira não poderia suportar seu peso e ele cairia. Tentou espantar os ratos, mas eles voltavam e continuavam a roer a parreira.
Neste momento ele observou que crescia um morangueiro na parede do precipício, não muito longe dele. Os morangos pareciam grandes e maduros. Segurando-se na parreira com apenas uma das mãos, com a outra colheu um morango.
Com um tigre acima, outro abaixo, e com os ratos roendo a parreira, o homem comeu o morango e achou-o absolutamente delicioso.

Posso escrever mil coisas sobre essa parábola budista:

Que o tigre de cima é teu passado - e que não adianta voltar por esse caminho ou se arrepender do que aconteceu. O que passou passou;
- Que o tigre de baixo é teu futuro - e por mais terrível que ele te pareça, um dia você vai ter que enfrentá-lo;
- Você estar pendurado em uma parreira é o presente, assim como os ratos, o branco e o preto, são todos os problemas que te afligem agora (e não adianta espantá-los ou fingir que não estão lá - só resta enfrentar a dureza da sua existência).
Mas o que importa mesmo são os morangos!

Por mais duro que possa ter sido o passado, por pior que te pareça o futuro, por mais medonho que pareça o presente, aproveita os morangos (e sempre existem morangos, basta procurar com atenção...)



Obrigada Fernando por nos lembrar que também existem morangos pelo nosso caminho.

Beijocas

Fonte dos cadeados

Diz a lenda que dois apaixonados prenderam um cadeado nesta pequena fonte no centro de Montevidéu.
Diz a lenda que foram felizes para sempre, então não demorou para que centenas de amorosos fizessem o mesmo, e a fonte quase não se vê, de tantos cadeados presos a ela. 
Centenas de histórias de amor gravadas em cadeados de todos os tamanhos, cores e marcas, uns enferrujados do tempo que vivem amores que perduram, outros mais novos, de amores recentes que não podem durar, deverão durar, pois essa é a mágica que deixa que amores vivam e perdurem.
Existe ao lado um restaurante onde se compra e grava cadeados chineses baratinhos por um bom precinho, quem sabe uma providencial ajuda ao amor.
Depois de trancados, chaves jogadas nágua para que tudo fique por lá, mas muito volte em desejos e esperanças de dias bons e felizes ao lado de quem se ama...


Insônia romântica Tanto? rsrs

Fazer filhos dormir II

Tenho trinta e um anos e já se passaram pelo menos dezoito desde a última vez em que minha mãe me fez dormir. 
E no escuro nos embalamos na rede, eu no meio, Carlos e Maria, cada qual num lado. Os dois fazem travesseiros dos meus braços e se olham apaixonados. Ele, pequeno, pega no cabelo da irmã. Ela, já quase grande, me olha com o rabo do olho, cheia de orgulho. 
A rede geme e eu gosto. Acho que eles gostam também pois não reclamam. Mas meu pai não gosta e entra no quarto sem falar nada, com um vidro de Óleo de Máquinas Singer nas mãos, e cala a rede. E não consigo mais juntar o compasso do que canto com a cadência da embalada. 
Hoje os dois resolveram lutar contra o sono. Ele fala todo o seu pequeno vocabulário de umas vinte e tantas palavras antes de dormir; ela me corrige quando troco os versos das músicas, até que se irrita e resolve cantar no meu lugar.
Por fim, dormem. Eu já estava nas músicas tiradas do fundo da memória, quase chegando aos gemidos de músicas que não lembro a letra. E no balanço já sem força da rede, com meus filhos deitados no meu peito, as pernas por cima de mim como se para me agarrar mais, lembro da minha infância e sinto vontade de chorar. A felicidade de ter tido quem me embalasse em uma rede; de ter tido quem me fizesse dormir ensinando músicas bonitas; de ter tido quem me permitisse olhar apaixonado meu irmão mais novo.
Por tudo isso sinto vontade de chorar, mas não choro! Afinal, foi um trabalhão fazer dormir esses dois e não quero que eles acordem!



Leia também: Fazer filhos dormir I

Fazer filhos dormir I


A memória que tenho da mamãe nos fazendo dormir é muito viva. Mais frequentemente ela se revela como lembrança do velho apartamento no Ed. Gualo, ultimo andar, de frente para a Praça da República.
Era sempre a mesma coisa, toda noite: na rede do nosso quarto, mamãe no meio com um filho de cada lado, pequenos ainda, as pernas e braços passando por cima do corpo dela como se para ficar mais perto.

Na cadência do rangido da rede ela encaixava o ritmo da musica e tudo acabava virando um som só. Engraçado que o ranger da rede pode ser um barulho insuportável para alguns, sempre com vidrinhos de Óleo de Máquinas Singer nas mãos. Já para mim, rede sem rangido, daqueles baixinhos, quase um gemido, acaba sendo um pouco menos bacana.

Mas voltando aos embalos, cada filho com seu latifúndio, as musicas iam se repetindo num repertório que até hoje é todo ela. Tínhamos nossas canções preferidas, aquelas que calávamos para ouvir com mais atenção; tínhamos também aquelas que preferíamos cantar junto, bem alto. Tinha uma que nos metia medo - e ela cantava somente para ver nossa cara de espanto e rir depois. E tinha umas que não entendíamos, pois eram cantadas em outras línguas - e eu achava mamãe muito inteligente por saber tanta coisa difícil.

Geralmente meu irmão dormia rápido. Eu não! Lutava contra o sono com todas as minhas forças - o que acabava colocando mamãe em uma situação ruim. Quanto mais eu demorava para dormir, mais as musicas ficavam desconhecidas, até que, depois de algum tempo, acabavam virando somente os gemidos de algo que devia ser uma música, mas ela não lembrava a letra.


Há uma frase que diz: Se a felicidade está nas pequenas coisas, então te desejo um bocado de coisinhas... Os textos do Fernando são assim: cheio de quotidiano, cheio de coisinhas... E de tanto ler suas crônicas no orkut  e no face, eu não resisti e lhe fiz o convite para ser a voz masculina do Meu Mundo... e compartilhar conosco seus textos, e meu coração se encheu de "coisinhas" por ele ter aceitado rsrs 
Então essa é a postagem inaugural do Fernando, amigo com quem tive o prazer de trabalhar e conviver enquanto morei em Belém (saudades daquele tempo). Ele também tem seu blog, o Domisteco, Fernandel, que está parado desde 2013 por motivos pessoais, mas que continua com textos lindos, cheios de  amor e de coisinhas...

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